De pés descalços

E foi. Um passo de cada vez... De pés descalços e coração aos pulos.
Ouvia um barulho que não parecia ser dos seus pés, não parecia estar sozinha.
Mas estava.
Fazia frio e concentrava-se no trilho, que seguia com os olhos, para não pisar nada que a magoasse. Embora o caminho lhe fosse familiar, ela não arriscou.
Ela não sabia para onde ia ao certo mas deixou-se ir. A brisa era leve, fazia-lhe voar os caracóis e ela gostava da sensação.
As folhas estavam húmidas e o ar, que respirava fundo, gelava-a.
Queria perder-se para que nunca tivesse de deixar de ali estar. Desejava pertencer ali.
Ansiava não se sentir mais presa, porém já era livre do lado mais importante- o lado de dentro! Os ombros não lhe pesavam mais, o coração doía, tem sempre que doer. Tem que arranjar uma maneira de mostrar que lá continua, intacto ou não.
Ouvia-se a àgua do rio e o cantar dos tordos.Olhou, por momentos, para cima. O sol cegava e o frio queimava.
Mesmo assim, sentia-se com toda a força para continuar. 
E continuou. Em frente, naquele caminho, sem indicações, consigo mesma. Foi e continuou, sem destino. Nada a preocupava mais.
Sentia-se como o tordo, podia voar e ver as coisas lá de cima. Como a àgua, fresca. E como o vento, rebelde.
Agora sabe que é por esse caminho que tem que ir sempre que não souber mais para onde se virar. Ela sabe que só tem que tirar as botas e soltar o cabelo, para que os seus pés sintam o chão e o seu cabelo esvoace.